Família

Seminário Internacional Família e Políticas Públicas

Programas de Parentalidade como fator de prevenção de violência e a Política da Infância de Jundiaí: uma parceria possível e desejável

Palavras-chave Família, Desenvolvimento integral, Saúde Mental, Habilidades Parentais, Problemas de Comportamento, Violência, Treinamento Parental, parent skills training, positive parenting skills and practices, Aprimorar práticas de Parentalidade Positiva, Fator de Risco e Fator de prevenção, Fator de promoção, Vínculo Familiar, Disciplina Positiva, Comunicação, Regulação Emocional, Manejo de raiva e stress, Espaços de reflexão, Metodologia validada, liberar apegos a padrões de pensamento disfuncionais.

 

Ao invés de se perguntar o que fazer com as crianças abusadas, devemos nos perguntar o que fazer com as famílias para as crianças não serem abusadas. Além do benefício humano e social, a prevenção traz economia ao erário, pois tratar as pessoas após o dano sofrido é mais custoso do que trabalhar na prevenção.

Marcelo Couto Dias 

Alianças e contratos são coisas diferentes. Em um contrato, o que importa é que ambos ganhem. Em uma aliança, o que importa é que ambos dêem. Contratos são acordos celebrados para vantagem mútua; pactos são compromissos morais. O contrato social cria um estado; aliança social cria uma sociedade. O contrato social trata do poder e de como ele deve ser tratado dentro de uma estrutura política. Aliança social envolve compromissos morais, os valores que compartilhamos e os ideais que nos inspiram a trabalhar juntos para o bem comum.

Jonathan Sacks, The Home We Build Together, 2007

O esforço que esse relatório demonstra em relação ao exame do campo das políticas familiares, não obstante ser um primeiro esboço, é proporcional ao caráter essencial e estratégico da família como setor de base da sociedade, como rede primária e rede permanente. A família, mesmo que se dissolva ou se disperse, permanece presente, sendo um ponto de referência que sempre reaparece, para o bem ou para o mal (cf. Sanicola, 2015).

Relação entre família e bem estar social

Vivemos um contexto onde a família tem sido por vezes atacada e questionada pelo Estado. A família tem sido descaracterizada, especialmente a família fundada no casamento e aberta para acolher e educar os filhos. No âmbito da cultura, nas novelas e programas, a família não é valorizada nem promovida. 

 

Todo mundo vem de uma família. Realidade universal que toca a todos. Contudo, vivemos um período de colapso das evidências. O que era evidente tem deixado de sê-lo. A antropologia (conceito de homem) está em jogo. Levi-Strauss já afirmava há muito tempo que a união durável socialmente aprovada entre homem e mulher está presente em todas as culturas. Existe reconhecimento universal da família como união de homem e mulher. 

 

Existe correlação entre família e bem-estar social. A depender do modo de organização do núcleo familiar, haverá mais ou menos bem estar social. O Estado nunca é o sujeito absoluto do estado.  Sistemas familiares, participação no mercado e colaboração do estado – a tríade do bem estar (cf. Esping Andersen). Integração social envolve o emprego mais a integração numa rede de relações que valoriza a pessoa na sua totalidade. O indivíduo integrado é aquele que está inserido numa rede assim. A partir daí muitos se deram conta de que a família é um insubstituível capital social. Família é uma fonte de recursos tangíveis e intangíveis que favorecem a inserção do indivíduo na sociedade. Elementos para constituição do indivíduo como pessoa e como cidadão. 

 

Como a família provê aos indivíduos esses recursos? Na família existem bem relacionais (cf. Pierpaolo Donati). Paternidade é uma relação que produz bens para os filhos. Bens que nascem e se desenvolvem a partir da relação. Confiança é um bem relacional. Só desenvolvo confiança na relação. A criança começa a estranhar quando começa a desenvolver o senso de confiança. Pais se tornam o centro afetivo. Caso se perca no parque, falta o centro afetivo. Reciprocidade é um bem relacional. Dar e receber se aprende na relação. Amor é um bem relacional. Que ama, ama alguém. Sociedade confusa que ama coisas. Cara ama o carro e não sabe cuidar do filho. Amar é a capacidade de fazer da sua vida um dom para o bem do outro. Como viver a fraternidade se fui privado na condição de ter irmãos?

Educação é um dever gravíssimo dos pais. Comunicar valores e princípios. Se o pai não fizer, ninguém o fará. Ou não fará direito. Pai faz testemunhando. Todo pai tem condição de educar (podemos abdicar da nossa capacidade de educar). Ao permitir que os pais gerassem, Deus permitiu também que os pais educassem. 

https://www.youtube.com/watch?v=wDERshctCHA

Políticas Familiares (Programas Parentais) no Brasil – breve panorama

Campo relativamente recente, as políticas familiares no Brasil, mais especificamente os programas de habilitação parental como fator de prevenção de comportamento de risco, possuem cerca de uma década no país. O programa ACT (voltado para primeira infância) começou a implementação, salvo engano, em 2018, embora ele já seja estudado no Brasil há onze anos por pesquisadores do Lapredes/USP. Já o programa Família Fortes (volta para adolescência) teve seu projeto piloto em 2013, mas sua implementação ganhou efetividade por ocasião da criação de um setor focalizado e especializado em 2019 e que teve vigência até 2022 – a Secretaria Nacional da Família.

No último biênio, não obstante a extinção dessa secretaria, as iniciativas municipais estão crescendo, como mostrou o Seminário, no qual foram apresentadas as iniciativas das cidades paulistas de Osasco, Barueri e Pompeia, além do trabalho em Campina Grande e outras vinte e quatro cidades cearences. A apresentação do caso uruguaio pela própria diretora do Ministério da Saúde de lá reforça o caráter universal dos programas de habilitação parental como fator de prevenção de comportamento de risco, aplicáveis nos mais diversos contextos.

 

Fator de risco e fator de proteção 

Como falaremos constantemente sobre fator de risco e fator de prevenção, convém de partida mencionar a fala da professora Zila Sanchez, presente no caderno do Seminário. A professora Zila é livre-Docente em Epidemiologia e chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP. Acerca dos fatores de risco e de proteção, a professora Zila assinala que

A ciência básica que quantifica o risco ao qual um adolescente está exposto é a Epidemiologia, que, através de seus desenhos de estudo longitudinais, identifica os preditores de comportamento futuros. Tais estudos permitem o cálculo das chances de que um comportamento de risco ocorra a partir da presença de um ou mais preditores. No entanto, chance não é sinônimo de certeza de ocorrência. Em outras palavras, o fato de existir um fator de risco não determina a ocorrência do evento. De maneira metafórica, dizemos que os fatores de risco e proteção para um comportamento funcionam como pesos nos pratos de uma balança. Assim, quanto mais fatores de risco um adolescente tem, maior a chance de um dado comportamento, que depende daqueles preditores, ocorrer. Porém, se ele possui mais fatores de proteção, poderá contar com uma balança que tenderá a pesar mais no sentido da prevenção, protegendo este jovem do comportamento. Com base nas evidências epidemiológicas, esses fatores de risco e proteção são complementares em todos os domínios, por exemplo: ter mais religiosidade é um fator de proteção, enquanto menos religiosidade é um fator de risco. Possuir pais ausentes e negligentes é um fator de risco, enquanto pais presentes e participativos, um fator de proteção.

Introdução 

No último dia 04 de junho aconteceu, no teatro Glória Giglio de Osasco, o Seminário Internacional Família e Políticas Públicas. O seminário foi organizado pela Prefeitura de Osasco através da Secretaria da Família, Cidadania e Segurança Alimentar

Capitaneado pelo ex-diretor de formação na Secretaria Nacional da Família do governo federal, o gestor da pasta da Família em Osasco, Dr. Marcelo Dias, o evento contou com a presença de diversas autoridades e de pesquisadores nacionais e internacionais no campo dos estudos das políticas familiares.

Como pioneira no campo das políticas da primeira infância, campo crescente no país, um trabalho iniciado em 2017 e que culminou no lançamento do Plano Municipal da Primeira Infância em 2022, Jundiaí trabalha no campo da experimentação e do constante aprimoramento. As políticas familiares (family policy) ainda são um tópico novo em Jundiaí, o que é compreensível, pois é reflexo da falta de conhecimento do campo das políticas familiares que ainda persiste mas que, como mostrou o Seminário, vem mudando consideravelmente nos últimos anos. Como veremos neste relatório, os programas familiares podem contribuir muito para a política da primeira infância de Jundiaí.

Ninguém discute que saneamento básico é o “marco zero” da gestão pública. Todas as políticas públicas dependem da existência do saneamento básico. Talvez haja algum ceticismo de que a família consiga atingir o mesmo status de importância do saneamento básico no seio da sociedade, mas, considerando os dados e as evidências disponíveis, podemos dizer que é perfeitamente possível e necessário que os gestores públicos percebam que sem as políticas familiares, política que efetivamente tocam nas causas dos problemas de capital humano, sem as políticas familiares os problemas de violência contra crianças e juventude vão continuar sendo uma chaga drenando nossa dignidade, nossos recursos e nossas vidas.

 

Mananciais contaminados – maus-tratos no âmbito da família

A sociedade tecnológica se altera de maneira acelerada, com a nova robótica e a IA, mas o lugar onde as pessoas são geradas, criadas e emancipadas continua sendo o mesmo. Base da sociedade, a família encontra uma analogia perfeita com os mananciais de uma cidade. Assim como o abastecimento de água depende do cuidado dos mananciais, o mundo emocional carregado ao longo da vida e que abastece o sujeito é influenciado de modo decisivo por esse período formativo e sensível que é a infância. No entanto, embora sejam um setor essencial e estratégico, mananciais e saneamento básico ainda são objeto de negligência. De maneira dramática, o mesmo acontece com a família. A família que negligencia a si mesma é um drama social. A vida familiar é uma aventura complexa que exige competências familiares. Quando as pessoas, por diversos motivos, contingentes ou estruturais, seja por desemprego circunstancial ou por distúrbios emocionais que vem de longe, quando as pessoas são incapazes de conversar com os filhos, tanto no monitoramento de suas companhias quanto na escuta sensível de suas dores, instaura-se uma realidade muito comum no nosso país – os maus tratos no seio doméstico, que culminam na violência familiar. 

 

O Anuário Brasil de Segurança Pública de 2023 assinala um aumento de 14% nos casos de maus-tratos contra crianças e jovens (faixa 0-17 anos) em 2022. Os dados possivelmente são subnotificados, haja vista que, a título de comparação, cerca de 770 mil crianças já foram maltratadas nos EUA em 2008, segundo o U.S. Department of Health and Human Services, Administration on Children, Youth and Families. Além da subnotificação, o número de maus-tratos no Brasil se restringe aos marcos da legislação (art. 136 do CP e art. 232 do ECA). Não obstante a limitação dos dados, o aumento no número de casos é um sinal de alerta.

 

A relevância do campo das políticas familiares para a primeira infância é notória, haja vista que muitos casos de violência contra crianças acontecem no âmbito familiar. “A violência contra crianças por adultos dentro da família é uma das formas menos visíveis de maus-tratos infantis; contudo, trata-se de forma mais amplamente prevalente na maioria das sociedades” (Butchart et al., 2006). No caso de Jundiaí, conforme dados do Observatório municipal, a quantidade de crianças de 0 a 6 anos que deram entrada no CREAS em situação de abuso sexual vêm aumentando a cada ano desde 2021.

 

Segundo a Dra. Ivânia Ghesti, gestora adjunta do Pacto Nacional pela Primeira Infância lançado pelo CNJ em 2019 e uma das palestrantes do evento, a visão dos juízes da infância acerca das disfunções parentais está passando por uma mudança positiva. Antigamente, juízes com frequência se antecipavam em retirar as crianças de seus pais em casos disfuncionais. No entanto, vem se consolidando o entendimento de que, em muitos casos, é possível “consertar ao invés de jogar fora”, haja vista que proteger a família é dever do poder público conforme o artigo constitucional 226. É portanto possível, em muitos casos, promover competências familiares básicas mas que jamais foram aprendidas a contento por essas famílias que apresentam pais e cuidadores com comportamento disfuncional em termos de habilidades parentais básicas, tais como comunicação emocional, manejo de raiva e stress, monitoramento dos filhos e estabelecimento de limites claros e razoáveis. Programas de desenvolvimento de habilidades parentais baseados em evidências foram amplamente discutidos durante o Seminário.

 

Índice de sofrimento nas classes altas – família é problema transversal

 

Famílias Fortes é a tradução de The Strengthening Families, famílias fortalecidas, fortificadas, tonificadas. O nome mais cru seria “famílias recuperadas”, haja vista que o cenário do programa são pessoas abatidas pela vida, o que aliás não depende de classe econômica. A Dra. Ivânia, profissional do CNJ que estava no Seminário e que é responsável pela política de primeira infância no judiciário, falou algo óbvio mas importante: o índice de sofrimento nas classes altas é alto. A pobreza não é o único fator de vulnerabilidade. É sabido que as taxas de suicídio nos países nórdicos são elevadas. As classes altas também precisam de programas de treinamento parental. Daí o potencial de expansão dos programas à medida que a prefeitura estimule a sua implementação pela sociedade civil

Pensar as políticas públicas pela lente da família  

Da visão individual (atomizada) para uma visão da pessoa como parte de uma família (ser em relação)

Ao discutir a persistência dos índices de violência no Brasil, a Dra Ivania Ghesti do CNJ assinala que

Talvez um dos principais motivos da subsistência de altos índices de violência contra mulheres, gestantes, crianças e adolescentes, assim como contra jovens e homens (nesses casos, inclusive, altos índices de autoviolência) – apesar de significativos avanços teóricos, legislativos e em termos de políticas públicas, esteja no baixo investimento em políticas focalizadas no sistema familiar como um todo, considerando em especial a atenção integral desde a primeira infância.

A professora Karen Bogenschneider, pesquisadora da Universidade de Wisconsin, começou sua palestra por videoconferência trazendo justamente este ponto: a importância da lente do impacto familiar. Por que famílias importam para as políticas públicas? Bogenschneider propõe um olhar para as políticas públicas por uma nova  lente, a lente do impacto familiar. Uma lente milenar que se torna nova no sentido de recuperar uma legitimidade que se relativizou por diversos motivos históricos. Segundo ela, programas focados na família são nove vezes mais eficazes na prevenção de consumo de drogas do que programas que não adotam a lente da família para pensar as políticas públicas (cf. Kumpfer et al, Informa HealthyCare, 2003, disponível no Caderno do Seminário, p.7). 

 

Em artigo publicado há quase vinte e cinco anos, Bogenschneider (2000) já assinalava que o campo das políticas da família (Family policy) adquiriu a maioridade (pelo menos nos EUA) nos anos 1990 (haja vista que começou na década de 1970), “mas ainda não conquistara status proporcional ou comensurável às políticas econômicas ou ambientais”, sendo um dos motivos a dificuldade para definir o termo “política familiar” . No entanto, como mostrou o Seminário, felizmente essa dificuldade de definição vêm mudando. Os dois programas familiares implementados no Brasil e discutidos no seminário são uma demonstração concreta e baseada em evidências do que é uma política familiar.

Apoiar, não substituir

A constituição federal reconhece a família como sendo a base da sociedade. Ser base ou manancial significa que a família tem competências exclusivas, tarefas intransferíveis. Nesse sentido, cabe pensar onde se realiza a parceria necessária entre a família e o poder público, a começar pelo entendimento que não cabe ao Estado substituir a família, o que seria ilógico e altamente custoso para o Estado. Ilógico porque, sendo a base ou causa, a família já existia antes de haver o efeito – o Estado (anterioridade ontológica da família em relação ao Estado). Posto isso, é fundamental o poder público apoiar as famílias na sua árdua missão de garantir o desenvolvimento integral de seus membros, o que vai beneficiar a vida social com menos violência e menos uso dos serviços públicos de saúde e segurança. Desenvolver pessoas (criar filhos) envolve habilidades complexas e gerenciamento de demandas com efeitos de longo, haja vista que a qualidade da primeira infância ecoa por toda a vida. A família é a primeira experiência relacional da pessoa, trazendo um plataforma de lançamento para as relações futuras. A maneira problemática como as pessoas são lançadas no mundo por suas famílias, embora seja dramática, é muitas vezes uma realidade modificável. 

 

 Modificabilidade dos comportamentos parentais – otimismo realista

 

A modificabilidade dos comportamentos parentais é um pressuposto dos programas de educação parental. Usando os termos do psiquiatra austríaco Viktor Frankl, a modificabilidade dos comportamentos pressupõe a percepção do poder do espírito humano em transcender suas limitações e sofrimentos, por mais difíceis que sejam.  É o pressuposto de que a autonomia humana é possível, de que os pais podem ser empoderados novamente nas suas competências parentais de comunicação e escuta, manejo do stress, estipulação de limites,  não obstante as suas dificuldades circunstanciais e limitações antigas. Tal pressuposto está na base dos programas de educação parental.

A modificabilidade das disfunções familiares, salvo exceções que confirmam a regra, também tem como pressuposto que, embora seja um fator decisivo, os distúrbios da primeira infância não condenam o adulto à desgraça imutável, haja vista que as pessoas são influenciadas por diversos fatores mas não são completamente determinadas. A possibilidade de transcender traumas, sofrimentos e limitações é outra maneira de descrever a capacidade livre e criativa do ser humano.

Essa antropologia ou visão do ser humano também pressupõe a distinção entre otimismo e esperança:

Otimismo e esperança não são a mesma coisa. Otimismo é a crença de que o mundo está mudando para melhor; esperança é a crença de que, juntos, podemos melhorar o mundo. Otimismo é uma virtude passiva. Não é preciso coragem para ser otimista, mas é preciso muita coragem para ter esperança. A Bíblia Hebraica não é um livro otimista. É, no entanto, uma das grandes literaturas de esperança. Jonathan Sacks. To Heal a Fractured World, 2005, p. 166.

Iniciativas internacionais no campo das políticas familiares 

Pedro Holanda, um dos palestrantes do Seminário, contou sobre a existência de um decreto municipal em San Francisco que permite que o trabalhador solicite arranjo flexível de trabalho junto ao empregador com o respaldo do Estado. É o chamado Decreto de Horário de Trabalho Flexível (San Francisco Family Friendly Workplace Ordinance). Os empregadores são obrigados a considerar os pedidos dos empregados para acordos de trabalho flexíveis ou previsíveis para ajudar nas responsabilidades relacionadas à prestação de cuidados (ex. crianças, idosos e pessoas em graves condições de saúde). Trata-se de uma legislação favorável ao equilíbrio entre família e trabalho, tópico estruturante das políticas familiares, uma vez que o pressuposto do vínculo familiar é a disponibilidade de tempo dos pais para com os filhos. 

Outras iniciativas municipais no âmbito de políticas familiares mencionadas por Pedro Holanda foram o Centro de Acción Familiar de Buenos Aires destinado a crianças, jovens e suas famílias e o Family Service de Toronto

Programas de Promoção de habilidades parentais

Programa ACT – Habilitando Pais para a Primeira Infância

Parentalidade e Prevenção de Violência

Criado há quase vinte e cinco anos (2001) nos Estados Unidos pela American Psychological Association (APA), o programa ACT (Adults and Children Together against violence)  desde 2015 está cadastrado na CEBC – plataforma de práticas baseadas em evidências que subsidia as políticas de primeira infância do departamento de serviço social da Califórnia. Não obstante essa validação externa, o programa ACT tem validação interna em nosso país, haja vista que o Brasil é o maior produtor de pesquisa sobre esse programa, segundo nos informou no Seminário a professora Maria Beatriz Linhares, professora sênior do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e coordenadora do LapredesLaboratório de Pesquisa em Prevenção de Problemas de Desenvolvimento e Comportamento da Criança dessa mesma faculdade. Dra; Beatriz também integra o Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância, criado em 2021. Segundo a professora Beatriz, o programa ACT já tem “onze anos de pesquisa”, tendo sido implementado e estudado em larga escala no Brasil (1300 famílias) ao longo de uma década. Em sua palestra, ela alertou para a necessidade de programas de prevenção como o ACT, que atuam antes dos problemas se instalarem na sociedade. Ao reagir à palestra da professora Beatriz, o secretário da Família de Osasco, Dr Marcelo Dias, realçou a importância de uma mudança de paradigma: 

Ao invés de se perguntar o que fazer com as crianças abusadas, devemos nos perguntar o que fazer com as famílias para as crianças não serem abusadas. Além do benefício humano e social, a prevenção trás economia ao erário, pois tratar as pessoas após o dano sofrido é mais custoso do que o trabalhar na prevenção. 

Desde 2018, o programa ACT foi implementado em Pelotas/RS, atendendo mais de 500 famílias, em Fortaleza/CE e outras 23 cidades cearenses desde 2021 e desde 2023 em Osasco/SP.

Programa Famílias Fortes (PFF) – enfrentando a negligência como fator gerador de risco

Em um trabalho há quase dez anos (Altafim e Linhares, 2016), numa meta-análise que incluiu 16 diferentes programas de promoção de práticas educativas para pais e cuidadores (promoção de habilidades parentais) prevenir a violência e os maus-tratos infantis, concluiu-se que

Todos los estudios que evaluaron las prácticas educativas demostraron una mejoría después de la intervención (n = 18). Los programas demostraron una mejora en el comportamiento de los ninos en el 90% de los estudios que evaluaron este resultado. En conclusión, los programas educativos para padres demostraron ser una estrategia importante para la prevención universal de la violencia y el maltrato infantil. Se enfatiza la importancia de la implementación y evaluación de programas de educación parental en los países en desarrollo y más ensayos controlados aleatorios.

O Programa Famílias Fortes foi desenvolvido nos anos 1980 nos Estados Unidos pela Dr. Karol Kumpfer e já se encontra difundido nos 50 estados americanos e em mais de 25 países e adaptado para o Brasil desde 2013 a partir da versão inglesa da Escola de Saúde e Assistência Social da Oxford Brookes University, no Reino Unido. O impulso para esse desenvolvimento veio na sequência de um estudo de investigação científica de alta qualidade em Iowa, nos Estados Unidos, que analisou a eficácia da Metodologia. 

Segundo o manual do programa, esse estudo e a Metodologia de Iowa foram destacados em uma revisão sistemática da International Cochrane Collaboration financiada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Conselho de Educação e Pesquisa sobre Álcool do Reino Unido (AERC). Essa revisão foi apresentada na Conferência Ministerial UE/ OMS realizada em Estocolmo em 2001, que levou à Declaração de Estocolmo sobre “Os Jovens e o Álcool”. Em 2006, outra revisão Cochrane apontou o potencial do Famílias Fortes na prevenção do abuso de drogas entre os jovens. 

O programa já foi aplicado e adaptado culturalmente para o Reino Unido (Coombes, Allen & McCall, 2012), os Estados Unidos (Semeniuk, Brown, Riesch, Zywicki, Hopper & Henriques, 2010), a Polônia (OkuliczKozaryn & Foxcroft, 2012), a Itália (Ortega, Giannotta, Latina, & Ciairano, 2012), a Suécia (Skarstrand, Larsson, & Andréasson, 2008), dentre outros países.

No caso de Jundiaí, um programa como o Famílias Fortes aprofundaria exponencialmente o programa de palestras educacionais executado nas escolas por diversos segmentos da Guarda Municipal de Jundiaí, com temas voltados para a disseminação da cultura de paz. Famílias fortes usa uma metodologia de prevenção de comportamentos de risco destinada a famílias com filhos entre 10-14 anos, visando o fortalecimento dos vínculos familiares e o desenvolvimento de habilidades parentais. Segundo o manual do programa na sua versão brasileira:

Uma relação positiva entre os familiares cria condições favoráveis para o bom desenvolvimento dos filhos, e tende a afastá-los de condutas de risco.  

Segundo o manual do programa, os objetivos específicos do Famílias Fortes são

Ensinar pais e filhos a desenvolverem maneiras eficazes de comunicação e relacionamento;  

Mostrar aos pais a importância de apoiar seus filhos;  

Ajudar os pais a disciplinar e orientar seus filhos de forma eficaz;  

Orientar os filhos sobre como compreender e valorizar seus pais;  

Ensinar os filhos o manejo do estresse e a pressão dos amigos;  

Promover uma expectativa de futuro aos jovens. 

 

Os principais resultados do Famílias Fortes são:  

Redução da agressividade;

Melhoria na qualidade da relação familiar;

Melhoria nas habilidades parentais;

Redução em maus-tratos infantis;

Melhoria nas habilidades sociais dos jovens;

Melhoria em engajamento escolar;

Melhoria do desempenho acadêmico;

Aumento da perspectiva de tempo futuro;

Redução do uso de drogas;

Redução em comportamento antissocial.

 

Programa Famílias Fortes no Uruguai: Análise dos resultados

 

Em 2022, o programa Famílias Fortes foi implementado em cinco regiões do Uruguai  e alcançou 90 famílias. No início de 2023, novas equipes de facilitadores foram capacitadas para alcançar novas regiões.  Este relatório apresenta os principais resultados da implementação ao longo do ano de 2023. Segundo Lorena Aquino, uma das palestrantes por videoconferência e coordenadora da Área Programática de Prevenção e Abordagem de Adicções² da  Dirección General de la Salud do Ministerio de la Salud Pública de Uruguay, 

A dimensão comunicação efetiva é a de maior impacto. Antes de passar pelo programa, apenas 16% dos adultos disseram que frequentemente (quase sempre) desenvolvem uma comunicação eficaz. Após a intervenção, essa comunicação efetiva é desenvolvida mais regularmente por 91% dos adultos. O impacto e a dimensão da mudança no ambiente familiar são proporcionalmente inversos ao que foi expresso pelas famílias pré-intervenção em relação ao expressado pós-intervenção. Em outras palavras, há uma mudança acentuada segundo o expressado pelas famílias que participaram do programa.

 

Pesquisadora da Unifesp aponta evidências de resultado na aplicação do programa Famílias Fortes em novos estudos

 

A palestra do professora Zila Sanchez, da UNIFESP, foi uma das mais marcantes, por alguns motivos. Em primeiro lugar, a professora Zila começou assentando que já é um ponto pacífico a influência dos pais nos primeiros anos de vida, sendo que o foco atual dos estudos sobre família e desenvolvimento concentra-se em discutir as estratégias para a mudança de comportamento dos pais. Em outras palavras, encontrar as melhores estratégias para implementar os programas com êxito, de modo que os objetivos se tornem resultados. A professora Zila antecipou as conclusões de um estudo novo liderado por ela e que contém dados de 6 meses, 1 ano e 2 anos após a implementação, permitindo uma análise abrangente dos efeitos do programa Famílias Fortes em 1600 famílias em 12 cidades do Brasil (atualmente o programa é ou já foi aplicado em cerca de 226 municípios desde o seu piloto em 2013). Acerca desse estudo, no resumo publicado no Caderno do Seminário, a professora Zila assinala que  ele avaliou

 

o efeito do programa Famílias Fortes em relação aos comportamentos parentais e à prevenção do uso de substâncias por adolescentes em 6 (SANCHEZ et al., 2024), 12 e 24 meses (SANCHEZ et al., under review) após a intervenção. Participaram 805 famílias em um ensaio controlado randomizado em 12 municípios brasileiros. Houve redução no estilo parental negligente e no consumo excessivo de álcool dos pais, tanto a curto (6 meses após a intervenção) (SANCHEZ et al., 2024), quanto a longo prazo (12 e 24 meses após a intervenção) (SANCHEZ et al., under review). Além disso, constatou-se que as práticas parentais mediaram os efeitos do programa na redução do consumo de álcool e no consumo excessivo de álcool pelos adolescentes e também foi encontrado um efeito indireto do programa na redução do uso de cigarros e inalantes pelos adolescentes, a partir do aumento da responsividade e da exigência parental, sugerindo um impacto do programa na prevenção do uso de substâncias (SANTOS et al., under review).

 

Estudo aponta efeito positivo das refeições em família na saúde de jovens

 

A professora divulgou um estudo de revisão sistemática realizado no Canadá em 2015, no campo da medicina da família, que aponta um aspecto bem intuitivo mas menosprezado, e cujo menosprezo tem contribuído para a negligência parental e consequente aumento de distúrbios pessoais e violência: o costume de manter refeições em família protege de comportamentos de risco:

 

Uma intervenção simples e não intrusiva que poderia facilmente ser aplicada para aumentar ambientes familiares saudáveis ​​é a realização de refeições em família. As refeições em família podem servir como uma arena para aumentar a coesão familiar, a estabilidade e a ligação, ou para melhorar os recursos de desenvolvimento dos adolescentes, tais como o desabafo de problemas e o desenvolvimento socioemocional, além de ensinar comportamentos e atitudes saudáveis.

As refeições familiares frequentes estão inversamente associadas a distúrbios alimentares, consumo de álcool e outras substâncias, comportamento violento e sentimentos de depressão ou pensamentos suicidas em adolescentes. Existe uma relação positiva entre refeições familiares frequentes e aumento da autoestima e sucesso escolar. Estudos mostram diferenças substanciais nos resultados para crianças e adolescentes do sexo masculino e feminino, com as mulheres apresentando resultados mais positivos

Desenvolvido por: André Oswaldo Valença Ribeiro

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